
A convivência com a mineração e suas consequências é uma realidade diária para a população de Itabira. O recém-publicado Relatório Anual de Barragens de 2026, divulgado pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), detalha o cenário atual do município, que hoje abriga 23 barragens, sendo 19 de contenção de sedimento da atividade. Mesmo com os índices de estabilidade controlados, os dados reforçam a necessidade de atenção contínua do poder público e da sociedade.
O principal foco de monitoramento diz respeito ao Dano Potencial Associado (DPA), que avalia o impacto humano, ambiental e econômico em caso de um eventual rompimento. O relatório aponta que 14 barragens em Itabira são classificadas com DPA “Alto”. Todas essas grandes estruturas estão sob a gestão da mineradora Vale. Entre elas, encontram-se os represamentos do Itabiruçu, Conceição, Borrachudo, Rio do Peixe e Santana. 13 destas barragens foram avaliadas com Categoria de Risco (CRI) “Baixo”.
Barragem do Pontal
O ponto de maior alerta no mapa de Itabira é a barragem do Pontal. De acordo com o documento, ela é a única estrutura do município a registrar, simultaneamente, Alto Risco (CRI) e Alto Dano Potencial Associado (DPA).
Atualmente, o Pontal não recebe mais rejeitos e está em fase de descaracterização, um processo que visa eliminar definitivamente a sua função de contenção e reintegrar a área ao meio ambiente. Estruturas como Cambucal I e Jirau também passam por esse mesmo processo.

Além da grande mineração
O levantamento também chama a atenção para um fator que frequentemente passa despercebido: a segurança de estruturas menores. Além do Pontal, o município possui outras quatro barragens classificadas com “Alto Risco”.
Essas estruturas, no entanto, não pertencem a grandes mineradoras, mas sim a entes privados menores, como propriedades rurais e construtoras locais, a exemplo de barramentos em sítios e fazendas. A diferença fundamental é que todas elas possuem baixo potencial de dano (DPA Baixo). Isso significa que, em caso de falha, o volume de água ou sedimentos liberado teria um alcance bastante restrito, sem ameaçar áreas densamente povoadas.

Neste escopo há o Barramento Sítio Construtora Vale Verde. De acordo com relatório, a estrutura, que pertence à Construtora Vale Verde Ltda, é uma das cinco na cidade a registrar Alto Risco. O represamento da RPD Carnes LTDA destinado à dessedentação animal e outras duas estruturas de um empreendedor individual destinadas à aquicultura completam a lista de Alto Risco.
Relevância
Os dados não apontam para um cenário de pânico, mas servem como um ponto de transparência para a sociedade. O avanço nas obras de descaracterização é um passo importante, mas o relatório deixa uma mensagem clara: a segurança de Itabira depende do acesso irrestrito à informação e da cobrança contínua por uma fiscalização eficiente em todas as suas 23 barragens.
Posicionamentos
O Notícias Uai entrou em contato com a assessoria de imprensa da Vale, que disse que irá enviar nota.
O portal também entrou em contato com a Construtora Vale Verde, que ressaltou que o barramento é de “pequeno porte” e que é “considerado estável e seguro” (leia o posicionamento na íntegra abaixo).
A RPD Carnes LTDA ainda não retornou ao nosso email. Não conseguimos localizar o contato do empreendedor individual. O espaço segue aberto.
- Leia a nota da Construtura Vale Verde na íntegra:
“A Construtora informa que o barramento localizado no Sítio Construtora Vale Verde, em Itabira (MG), está regularizado, possui outorgas válidas emitidas pelo Instituto Mineiro de Gestão das Águas (IGAM) e não oferece risco de rompimento.
De acordo com o Relatório Anual de Segurança de Barragens de 2026, a estrutura é de pequeno porte, possui Dano Potencial Associado (DPA) baixo e segue acompanhada pelos órgãos fiscalizadores.
A empresa esclarece ainda que a classificação de Categoria de Risco (CRI) alta não deve ser analisada de forma isolada, pois se trata de um critério técnico que indica apenas a necessidade de monitoramento mais frequente e manutenção preventiva, e não risco iminente de rompimento. A avaliação da segurança deve considerar o conjunto dos indicadores, incluindo o DPA baixo e o fato de a estrutura não se enquadrar na Política Nacional de Segurança de Barragens como barragem de grande porte.
Com base nesses critérios e nas condições atuais de operação, o barramento é considerado estável e seguro. A Construtora Vale Verde mantém rotinas contínuas de inspeção, monitoramento e manutenção, permanecendo à disposição para prestar esclarecimentos e reafirma seu compromisso com a segurança, a transparência e cumprimento rigoroso da legislação.”








